A minha Moleskine é um blog!

Outubro 31 2011

 

Este post que agora escrevo vem no seguimento do post dedicado a João de Deus.

 

Era impossível para mim escrever sobre a minha filha sem falar destes dois tópicos.É essencialmente para ela que escrevo.{#emotions_dlg.heart} Quero que lembre qual o método pelo qual aprendeu a ler e a escrever e desejo que sinta reconhecimento por um homem que criou um método em 1876 (100 anos antes da mãe dela nascer){#emotions_dlg.tongue} que ainda hoje é reconhecido como extraordinário!

 

 

"Ser homem é saber ler" (1877)

 

 

 

Características do método:

 

- O Abecedário é apresentado por partes e relacionado com palavras do dia-a-dia da criança. Palavras que se digam, que se ouçam;

 

- Os aspectos visuais também são uma característica. Ainda hoje não há método com esta característica. As palavras são escritas a preto e cinza para ajudar na divisão silábica;

 

- O uso do livro grande na sala de aula. Na escola da Inês a cartilha em tamanho grande está presente na sala a partir do 5 anos;

 

- Cada criança segue a cartilha ao seu ritmo (e não ao ritmo da turma). Lembro-me da Inês me dizer que no bibe vermelho (5 anos) iam à cartilha em grupo e que existiam grupos que iam mais à frente que outros;

 

- Fomenta a autocorrecção, porque estimula a criança a analisar a linguagem através da explicação das regras;

 

- As consoantes são ensinadas através dos valores que possuem (vários sons que apresentam nas palavras);

 

- Parte do mais simples para o mais complexo;

 

- A cartilha está organizada por lições e é tão clara e tão simples que as mães ficavam aptas a ensinas os seus filhos... daí o nome cartilha maternal...

 

 

A cartilha está organizada da seguinte forma: [i], [u], [o], [a], [e], [v], [f], /j/ [ʒ], [t], [d], [b], [p], [l] (lêlhe), /c/ (cekêxe), /g/ (jêgue), /r/ (rêre), /z/ (zêxe), /s/ (cezêxe), /x/ (kcecezêxe), [m] (metil), [n] (nenhetil), /h/.

 

 

 

As lições têm regras muito precisas e claras... quase matemáticas!!! 

 

 

Exemplo de uma lição da cartilha: 

 

 

A 16ª lição é dedicada ao /g/.

 

Diz-se às crianças que esta letra se lê jjj... e que se chama .

 

Lembram a criança que já conhecem uma letra que tem este mesmo som (o /j/; se necessário for, voltam à 4ª lição).

 

 Lê-se desta maneira quando tem à frente um /e/ (gelo) ou um /i/ (girafa).

 

A criança deve então ler palavras em que treine só este valor – exemplo: «geleia», «colégio», etc.

 

 Na lição seguinte recorda-se o primeiro valor e apresenta-se o segundo, dizendo: – Esta letra também se lê com a língua encolhida e chama-se guê [g]. Lê-se com este valor quando à frente não tem /e/ (gato) ou /i/ (gola). Com estes dois nomes formamos um só nome, que é jêgue.

 

 

publicado por vcl às 08:38

Outubro 28 2011

Ontem, antes de dormir estivemos a rever a 19ª lição da cartilha maternal… esta parece ser, de facto a lição mais difícil… mas tu não pareces-te muito preocupada… nem intimidada com os valores do S…

 

Esta é uma letra com vários casos de leitura e vários valores, consoante a sua posição na palavra.

 

1º valor  [sss]

Esta letra lê-se [s] quando está no princípio da palavra (sapato);

Quando estão dois juntos (tosse);

E às vezes quando está entre uma consoante e uma vogal (valsa).

 

2º valor [z]

Quando está entre vogais (casa).

 

3º valor [x]

Quando está no fim da palavra (botas)

Ou no fim de sílaba (foste).

 

publicado por vcl às 12:03

Outubro 22 2011

Aos três anos decidimos colocar a Inês num Jardim Escola João de Deus... O pai já tinha frequentado um e embora só tivesse permanecido dois anos falava muito sobre... comecei a interessar-me, a pesquisar sobre o método e a aconselhar-me... Confesso que as opiniões se dividem... de facto o método não é para todas as crianças e hoje concordo plenamente! Mas com a Inês foi a melhor decisão!! Ela nasceu... para ser ensinada assim! Obrigada João de Deus! Obrigada por essa paixão que teve pela educação e pela formação, que partilho e muito admiro!! Obrigada pelo que fez por Portugal. Entristece-me perceber que a grande maioria dos alunos do nosso sistema público comete tantos erros a escrever... e que ninguém tem a coragem de adoptar o método da cartilha no sistema público. Porque será???

 

A minha homenagem é deixar aqui um breve resumo sobre quem foi... especialmente para que a minha Inês um dia possa ler e verificar que foi, de facto, devido a si... que escreve tão bem!!!

 

 

Breve resumo sobre João de Deus...

 

 

João de Deus Ramos Nogueira nasceu a 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines. Filho de comerciantes humildes, teve 6 irmãos. Na infância estudou com o pároco da sua aldeia. Passou pelo seminário de Faro e de Coimbra e licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra.

 

Escrevia poesia e tinha o fascínio pelo desenho à pena. Tocava viola na perfeição e compunha música. Humilde e afável, rapidamente captou o afecto dos que o rodeavam. Era um conversador maravilhoso, amante das tertúlias, era admirado pelos colegas e conhecido por todos por o “João”.

Colaborou com muitos jornais mas não queria que lhe pagassem um salário fixo. Bastava que lhe pagassem o quarto e o tabaco. Também tinha o hábito, desde estudante, de fazer as viagens a pé, pernoitando em casa de quem lhe desse guarida. Como reconhecimento oferecia poesias e desenhos feitos por ele a quem o acolhia.

No Algarve encontrou uns velhos amigos que se aperceberam que apesar de João de Deus ser uma pessoa inteligente e culta, vivia de um modo
humilde. Pensaram, então, apresentar o seu nome para candidato a deputado pelo círculo de Silves à Assembleia Nacional, contrariando assim a sua vontade. João de Deus montou um burro e percorreu as aldeias pedindo que não votassem nele, mas acabou por vir a ser eleito. Como consequência mudou-se para Lisboa em 1868.

Em 1870 recebeu um convite para criar um método de leitura adaptado à língua portuguesa e inicia desde logo esse seu novo projecto a que chamará mais tarde Cartilha Maternal ou Arte de Leitura.

 

A 18 de Fevereiro de 1877 a Cartilha Maternal acabou de ser impressa em cujo prefácio João de Deus escreveu:

 

"(...) Às mães, que do coração professam a religião da adorável inocência, e até por instinto sabem que em cérebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violência pode deixar vestígios indeléveis, oferecemos, neste sistema profundamente prático, o meio de evitar a seus filhos o flagelo da cartilha tradicional. (...)"

 

Incrível... como pensava nas crianças e no cuidado que deve existir em não as aborrecer...mas sim estimular e fascinar!

 

Ao longo dos anos as várias edições da Cartilha Maternal esgotavam-se rapidamente. Mas João de Deus começou a pensar em fazer algo mais pelo povo português. Estava preocupado com a necessidade de chegar a um maior número de pessoas, mesmo aquelas que não iam à escola. Falou com o seu amigo Casimiro Freire e com a sua ajuda monetária e alento psicológico fundou a Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus em 1882. Começou a dar formação gratuita de Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, Arte de Escrita e Arte de Contas em sua casa a adultos que iriam trabalhar como professores do Método João de Deus, percorrendo o país em missões de alfabetização.

(...) Não basta ler, é necessário ler com conhecimento de causa. Quem não tem a análise das letras, quem não sabe as regras dos seus valores, não pode ensinar bem; e ensinando mal, isto é, com muito custo e pouco proveito, naturalmente se furta às ocasiões de ensinar os outros; o que é um grande mal. Eu espero ainda que às avessas do que actualmente se pensa, a opinião geral de todos seja que nada
mais fácil do que render esse serviço enorme, imenso, talvez o máximo que podemos prestar. Porque eu posso ser homem sem saber retórica : o que não posso é ser verdadeiro homem sem saber ler. (...)

 

Hoje, quando ajudo a Inês a rever as lições da cartilha aprendo as regras e os valores das letras... e a sensação que tenho é que aprendi... sem esse conhecimento de causa... e que pena tenho eu disso!!!

 

No dia do seu 65º aniversário, a 8 de Março de 1895, foi agraciado pelo rei D. Carlos com a condecoração Grã Cruz de Santiago. O rei tomou a iniciativa de ir pessoalmente a sua casa entregá-la. João de Deus encontrava-se debilitado devido à sua doença. Nesse mesmo dia foi-lhe feita uma homenagem de gratidão e apreço organizada pelos estudantes de Lisboa e outras associações estudantis que se quiseram associar, vindas do Porto, Coimbra e Santarém. Juntaram-se no Rossio, foram a pé até à casa de João de Deus e diante dela gritaram vivas, dedicaram-lhe canções e ofereceram presentes. João de Deus, abriu a janela, emocionado e declamou :


Que vindes cá fazer, oh
mocidade?

Despedir-vos de mim? Quanto
vos devo!

Também levo de vós muita
saudade

E em lá chegando à outra
vida...escrevo.

Estas honras, este culto
Bem se podiam prestar a
homens

De maior vulto
Mas a mim, poeta inculto
Espontâneo e popular
É de veras singular

 

Eu diria... que são as pessoas como tu... que pensam nos outros... na sua formação e no seu desenvolvimento.... sem esperar nada em troca ... que merecem as maiores homenagens!

 

Morreu a 11 de Janeiro de 1896. Foi feito um grandioso cortejo formado por amigos e gente do povo que o amava profundamente. As autoridades decidiram levá-lo para o Mosteiro dos Jerónimos. A 1 de Dezembro de 1966 o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional.

 

publicado por vcl às 21:48

Estas são as minhas anotações sobre a vida! Quero registá-las para não as esquecer! Quero que um dia as possas ler!
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